A trajetória dos chamados “soldados da borracha”, um dos capítulos mais marcantes — e ainda pouco conhecido, da história da Amazônia, ganha uma nova abordagem no livro “A Batalha da Borracha”, do historiador Francisco Eleud Gomes da Silva. Publicada pela Editora CRV, a obra apresenta uma análise histórica sobre a relação entre o Nordeste e a Amazônia durante o ciclo da borracha, reunindo pesquisa documental, história oral e revisão bibliográfica para compreender os impactos sociais, políticos e econômicos da migração de milhares de trabalhadores para a região.
Resultado da dissertação de mestrado defendida em 2015 no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o livro transforma uma pesquisa acadêmica em uma narrativa acessível ao público, preservando o rigor científico e ampliando o debate sobre um período decisivo para a formação da Amazônia contemporânea.
Com 166 páginas, a publicação percorre os acontecimentos entre 1939 e 1970, período em que milhares de nordestinos, principalmente cearenses, foram recrutados para atuar na extração do látex durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos seguintes. A obra evidencia como interesses econômicos nacionais e internacionais moldaram políticas migratórias e influenciaram profundamente a ocupação da região amazônica.
Dividido em três capítulos, o livro contextualiza desde as políticas de migração implementadas durante o governo de Getúlio Vargas até as consequências sociais enfrentadas pelos trabalhadores nos seringais. Entre os temas abordados estão o recrutamento dos “soldados da borracha”, a importância estratégica da produção amazônica para os Estados Unidos após o ataque a Pearl Harbor e os projetos de desenvolvimento implantados na região ao longo das décadas seguintes.
A pesquisa também dedica atenção às condições de vida dos seringueiros, revelando o funcionamento do chamado sistema de aviamento, mecanismo que mantinha trabalhadores permanentemente endividados junto aos seringalistas por meio da venda de alimentos, ferramentas e mercadorias a preços elevados. O modelo transformava a dívida em instrumento de exploração e restringia as possibilidades de autonomia dos trabalhadores.
Ao longo da obra, Francisco Eleud contrapõe a narrativa oficial que tratava esses homens como “soldados da borracha” à realidade vivida por eles, marcada por abandono institucional, ausência de direitos e invisibilidade histórica. A publicação também apresenta casos de disputas judiciais envolvendo seringueiros e demonstra como a promessa de patriotismo contrastava com as condições encontradas nos seringais amazônicos.
Para o autor, compreender esse período é essencial para interpretar os processos de ocupação da Amazônia e reconhecer a contribuição de milhares de trabalhadores nordestinos para a história econômica e social da região.
Sobre o autor
Francisco Eleud Gomes da Silva é graduado em História pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pelo PPGSCA/Ufam. Servidor técnico-administrativo da universidade, desenvolve pesquisas nas áreas de História, Educação e migrações, com foco nas relações entre o Nordeste e a Amazônia e na formação social da região.
