Por Ed Blair – Há histórias que o tempo não apaga. Algumas começam em um quartel, atravessam diferentes profissões, cidades e gerações e continuam vivas décadas depois. É assim com os integrantes da primeira turma de Fuzileiros Navais formada na Amazônia Ocidental, a turma 89-1, que celebra, em 2026, 37 anos de formação.
O encontro reuniu veteranos da turma pioneira, que iniciou sua trajetória em 1989, e integrantes de uma geração formada há dez anos. Mais do que uma comemoração, o momento revelou como experiências vividas na juventude permaneceram presentes na vida adulta e, em alguns casos, chegaram aos filhos.
Quem ajuda a contar essa história desde o começo é o suboficial Clementino, nome de guerra de um militar carioca que chegou a Manaus anos depois e, em 1989, atuou como instrutor da primeira turma de Fuzileiros Navais formada na Amazônia Ocidental. Hoje, ele mora em Santarém.
“Essa é a primeira turma de fuzileiros navais formados na Amazônia Ocidental, 89-1. É a primeira turma formada na história da Amazônia Ocidental”, lembra.
A turma começou com 36 integrantes e teve 22 formados. A preparação ocorreu em condições muito diferentes das atuais, com estrutura limitada e escassez de materiais. Os jovens chegaram a passar aproximadamente 40 dias sem ver a família.
“Naquela época era muito difícil, muito difícil mesmo, porque não tinha ventilador, não tinha ar-condicionado. O material era escasso, não tinha as coisas que tem agora”, recorda Clementino.
O afastamento da família fazia parte de uma transformação que os próprios participantes descrevem como profunda. Para Clementino, os jovens chegavam ainda muito novos e eram submetidos a uma formação rigorosa.
“No início você pega adolescentes, jovens ainda, formar eles homens. É uma mudança muito brusca. A própria família reconhece que é um treinamento muito duro”, afirma.
O que ficou depois de 37 anos
A distância entre aquela juventude e os homens que hoje se reencontram não apagou os ensinamentos. Segundo Clementino, a hierarquia e a disciplina aprendidas na formação continuam presentes dentro das famílias.
“A hierarquia e a disciplina que foi ensinada para eles, até hoje, eles usam para eles, para os filhos e para os netos. Isso eu tenho certeza”, afirma o instrutor.
A história de Armando Nascimento é um dos exemplos mais simbólicos dessa continuidade. Integrante da turma pioneira, ele viu o próprio filho seguir o mesmo caminho. O jovem faz parte da turma que agora completa dez anos e participou da celebração ao lado do pai.
“Meu filho está aqui. A turma dele está junto conosco fazendo dez anos. […] Ele está aqui comemorando comigo, isso para mim é mais do que uma honra”, conta Armando.
Para ele, a experiência militar pode deixar uma herança de valores para as famílias. Mas Armando faz uma ressalva importante: servir às Forças Armadas não é o único caminho para uma vida de contribuição à sociedade.
“Cada um segue o seu caminho. Mas, para mim que servi, eu sei o quanto foi importante para mim, para a minha vida e para a vida do meu filho”, afirma.

De uma família humilde no Pará para novas possibilidades
Entre as histórias da geração que completa dez anos está a de Mateus Moura, que veio do interior do Pará. Aos 30 anos, ele olha para a trajetória construída e reconhece na formação uma porta que ajudou a ampliar suas possibilidades de vida.
Mateus conta que veio de uma família pobre e foi o primeiro da família a concluir o ensino médio. A partir dali, conseguiu buscar outras oportunidades, incluindo o ensino superior, a construção de uma família e melhores condições para ajudar os pais.
“Eu sou de família pobre. Então, hoje, no histórico da minha família, eu sou o primeiro a ter o ensino médio formado”, relata.
Ele faz questão de destacar que a oportunidade precisou ser acompanhada de esforço pessoal.
“Com o meu esforço de ter estudado, feito o concurso público, mas o Corpo de Fuzileiros Navais me permitiu, me deu essa porta”, afirma.
A mudança foi ainda maior porque, segundo ele, as possibilidades profissionais em sua cidade de origem eram restritas.
“Como eu venho do interior do Pará, um lugar onde as expectativas são pouquíssimas, hoje na minha cidade tinha dois caminhos a ser seguido: ou você vira pescador, ou você faz qualquer outra coisa, um autônomo, vender peixe, pescar”, conta.
A mensagem que Mateus deixa para os jovens resume a própria trajetória:
“O pessoal acredite, se esforce, acredite no seu potencial, e uma hora o jogo vira, uma hora dá certo.”
Quando o frio virou uma lembrança de amizade
A experiência de Mateus também guarda uma lembrança que traduz, talvez melhor do que qualquer discurso, o significado de pertencer a uma turma.
Durante a formação em Brasília, em uma noite de frio intenso, com temperatura próxima dos 7°C, ele ainda não havia recebido a roupa adequada para enfrentar o frio. Depois de horas de exercícios físicos, começou a tremer.
A resposta dos colegas foi imediata.
“O pessoal que tinha a japona […] fez uma roda e botou todo mundo que não tinha esse material de frio no meio e se abraçou, para ajudar a esquentar”, lembra Mateus.
Enquanto ele descansava apoiado em um colega, o outro permanecia acordado para ajudá-lo.
“Uns ficavam acordados, outros dormiam, e a gente foi levando assim”, conta.
A cena ficou marcada porque representa uma das principais características que os integrantes atribuem à experiência: quando um fraquejava, outro ajudava a sustentá-lo.
E, dez anos depois da formação, Mateus diz que as amizades continuam.
“Essas amizades eu vou levar para a vida. […] Eu sei que, na hora que eu posso contar, eles estão comigo. E eu também estou com eles sempre”, afirma.

Uma identidade que não termina com a farda
A força desse vínculo também aparece na história de Edvaldo Souza, policial militar e integrante da primeira turma formada em Manaus.
Para ele, ser fuzileiro não é apenas uma fase profissional que ficou no passado.
“Aonde você estiver, em qualquer lugar do país ou do mundo, você sempre será um fuzileiro naval. Não existe ex-fuzileiro. Existe fuzileiro naval”, afirma.
Segundo Edvaldo, essa identificação cria uma espécie de irmandade entre pessoas que passaram pela mesma formação, independentemente da profissão que escolheram depois.
“Pode ser policial, pode ser pedreiro, pode ser de todo tipo de profissão […] e você for um fuzileiro, o colega vai te acolher dentro da sua casa, porque nós somos irmãos fuzileiros navais”, diz.
Da Marinha à segurança pública: servir continua sendo o propósito
A trajetória de Everaldo Matos também mostra como os valores aprendidos na juventude podem acompanhar uma pessoa por toda a vida.
Depois de deixar a Marinha em dezembro de 1992, ele ingressou na Polícia Militar em abril de 1993. Mais de três décadas depois, continua na ativa e atua na área de segurança pública.
A mudança de carreira não significou o fim do compromisso de servir.
“O importante é servir à sociedade”, resume Everaldo.
É justamente essa ideia que une as diferentes trajetórias da turma: servir pode assumir formas diferentes ao longo da vida.
Uma tradição que chega a novas gerações
A turma que completa dez anos mantém a mesma tradição de celebrar a formação, independentemente de seus integrantes estarem na ativa ou na reserva. Mateus explica que o vínculo começa ainda na escola de formação, quando jovens de diferentes partes do país passam a compartilhar internato, estudos, treinamento e desafios.
“Pessoal de vários lugares do Brasil […] com esse vínculo que é criado com esse tempo de formação, na verdade, que a gente tem um internato, onde a gente fica longe de tudo e só ligado com a parte didática, teórica, prática da formação do Fuzileiro Naval”, explica.
A nova geração também destaca a ampliação da participação feminina. Mateus observa que, a partir de 2024, passaram a existir turmas femininas e masculinas, ampliando as possibilidades de ingresso e especialização.
Para ele, a formação pode representar uma oportunidade especialmente importante para jovens que têm menos acesso a perspectivas profissionais.
“O Corpo de Fuzileiro Naval abre essa ponta e ensina valores […] que a gente leva não só para dentro das Forças Armadas, mas também para a vida no civil, na sociedade”, afirma.
Entre os valores citados estão respeito, responsabilidade, cuidado com a saúde física e mental, disciplina e capacidade de convivência.
22 irmãos, 37 anos depois
Dos 36 jovens que iniciaram a trajetória em 1989, 22 chegaram à formação. Hoje, eles se definem menos pela antiga hierarquia e mais pelo vínculo construído ao longo da vida.
“Hoje nós somos irmãos”, afirma um dos integrantes.
A definição ganha ainda mais força quando outro veterano resume a relação construída entre eles:
“Nós somos uma família. Então, são 22 irmãos que formaram, da minha turma de 36 […] são 22 irmãos.”
Ao longo das décadas, surgiram engenheiros, advogados, policiais, professores e profissionais de diferentes áreas. Cada um tomou seu próprio rumo, mas sem deixar para trás a identidade construída naquele período.
Agora, a contagem regressiva já começou para a próxima grande celebração: em 2029, a primeira turma de Fuzileiros Navais formada na Amazônia Ocidental completará 40 anos.
A ideia é reunir novamente os integrantes e convidar antigos instrutores, entre eles aqueles que participaram da formação pioneira.
Porque, para quem viveu aquela história, o tempo pode passar, as profissões podem mudar, os cabelos podem embranquecer e os jovens podem se tornar pais, avós e padrinhos.
Mas há uma coisa que permanece: “Uma vez fuzileiro, sempre fuzileiro.”
Presentes na celebração
Participaram do encontro Edvaldo Souza, Armando Nascimento, Ivan Santos, Everaldo Matos, Alessandro Botelho, Suboficial Clementino, Armando Soares, Maik Igor, Marcelo Rodrigues, Salomão Pontes, Mateus Moura e Nogueira Neto.
Entre eles, estão integrantes da primeira turma e da geração que completa dez anos. A identificação individual de cada participante por turma será ampliada à medida que a relação completa for confirmada.



