Por Ed Blair – A história de Luiz Felipe de Oliveira Clementino, 19 anos, e Luiz Eduardo de Oliveira Clementino, 18, começou na piscina e ganhou novos horizontes ao longo dos anos. Nascidos em Tabatinga, no Amazonas, os irmãos construíram em Santarém (PA) uma trajetória marcada por títulos na natação, disciplina e superação de limitações estruturais. Hoje, enquanto traçam caminhos diferentes no esporte, defendem uma visão que ultrapassa a própria carreira: o Brasil precisa ampliar o acesso, o investimento e a visibilidade das diferentes modalidades esportivas para que crianças e adolescentes possam descobrir seus talentos e chegar mais longe.
A trajetória começou ainda na infância. Luiz Eduardo entrou na natação por recomendação relacionada a um problema de asma. Luiz Felipe acompanhou o irmão, motivado também pelo gosto pelo esporte. O que começou como uma atividade ligada à saúde e uma experiência compartilhada entre irmãos acabou se transformando em uma trajetória esportiva marcada por conquistas.
“Eu comecei por causa da asma, e ele foi comigo porque sempre gostou”, conta Luiz Eduardo.
Com o passar dos anos, segundo ele, os sintomas deixaram de fazer parte de sua rotina. “Hoje em dia eu não sinto mais nada.”
A experiência pessoal fez com que os irmãos enxergassem a natação também como uma possibilidade de transformação para outras crianças. Sem transformar o caso individual em recomendação médica, a história de Luiz Eduardo mostra como o contato com o esporte pode fazer parte de uma trajetória de disciplina, autoestima, convivência e desenvolvimento.
Dezenas de títulos e um sonho nacional
Luiz Felipe soma nove títulos paraenses em competições federadas, conquistados em 2024 e 2025, além de mais de 60 títulos em provas não federadas, principalmente em águas abertas e aquathlon. Seus principais estilos na piscina são crawl e costas.
Luiz Eduardo conquistou sete títulos oficiais em competições federadas, nos campeonatos paraenses de 2025 e 2026, e acumula cerca de 40 títulos em provas não federadas, com participação também em competições de águas abertas. Na piscina, seus principais estilos são peito, borboleta e medley.
Nas competições federadas, os irmãos representam a Tuna Luso-Brasileira, de Belém. Nas provas não federadas, integram a CAA Sports, de Santarém.
Apesar dos resultados, os dois ainda não alcançaram o índice exigido para disputar competições nacionais de natação. O sonho, entretanto, continua vivo, embora os caminhos tenham começado a se dividir.
Luiz Felipe decidiu concentrar parte dos esforços no triathlon. Em 2026, disputou sua primeira prova na modalidade, na categoria sprint, e conquistou o segundo lugar. A prova reúne 750 metros de natação, 20 quilômetros de ciclismo e cinco quilômetros de corrida.
“Meu sonho era ir para o nacional e representar o Brasil em alguma competição no exterior. Agora quero focar mais no triathlon”, afirma.
Para ele, a modalidade oferece novas possibilidades de evolução, já que o resultado considera o desempenho nas três disciplinas.
“Na natação, existe uma progressão de índices para chegar ao nacional e depois às competições internacionais. No triathlon, o resultado considera o tempo geral da prova. Então posso compensar na natação e evoluir na corrida e na bike para conseguir um tempo melhor”, explica.
Do atleta ao treinador
Enquanto Luiz Felipe busca novos desafios como competidor, Luiz Eduardo começa a construir uma trajetória profissional ligada à formação de atletas.
Estudante de Educação Física, ele começou a acompanhar o trabalho do professor Anderson Cristiano de Sousa Amaral aos 13 anos. Aos 16, passou a dar aulas de natação ao lado do professor, experiência que contribuiu para despertar seu interesse pela carreira de treinador.
Hoje, Luiz Eduardo já atua com aulas de natação durante atividades de estágio e pretende ampliar sua formação para outras modalidades, como atletismo, ciclismo e triathlon.
“Meu objetivo na natação está sendo mais como técnico do que como atleta. Se eu não puder representar o Brasil como atleta, posso fazer isso como treinador, formando atletas para realizar esse sonho”, afirma.
O professor Anderson é apontado pelos irmãos como uma das principais referências de suas trajetórias. Eles o consideram um segundo pai e destacam o apoio recebido ao longo dos anos.
Resultados construídos com dedicação
A experiência dos irmãos também mostra que resultados esportivos podem ser construídos mesmo quando a estrutura disponível está longe da ideal.
Eles contam que a piscina utilizada nos treinamentos em Santarém não tinha a mesma estrutura encontrada em grandes centros esportivos. Ainda assim, os resultados obtidos em competições no Pará chamavam a atenção.
“Quando competíamos em Belém, as pessoas viam nosso rendimento e achavam que nossa estrutura era muito boa. Quando nosso professor mostrava a foto da piscina onde treinávamos, ficavam sem acreditar”, contam.
Para os irmãos, a experiência reforçou uma percepção que hoje orienta a maneira como enxergam o esporte: existem talentos espalhados pelo país que podem chegar mais longe quando encontram condições adequadas para desenvolver seu potencial.
Mais visibilidade para diferentes modalidades
A partir da própria experiência, Luiz Felipe e Luiz Eduardo defendem que o investimento esportivo seja distribuído entre um número maior de modalidades.
Para eles, futebol e vôlei concentram grande parte da visibilidade esportiva no país, enquanto modalidades como natação, atletismo, ciclismo, jiu-jitsu e outras ainda enfrentam dificuldades para atrair investimentos, público e novos praticantes.
“Se a visibilidade fosse mais dividida entre os esportes, essas modalidades também poderiam crescer em popularidade. A natação é um esporte caro, e muitos atletas que conseguem chegar ao alto nível têm apoio financeiro da família ou precisam correr muito atrás”, afirmam.
Os irmãos citam como exemplo as Usinas da Paz, no Pará, que reúnem piscinas, quadras, cursos e outras atividades para crianças, adolescentes e jovens. Na avaliação deles, estruturas desse tipo podem ajudar a revelar talentos, especialmente nas regiões onde as famílias têm menos condições de custear a formação esportiva.
Para Luiz Felipe, o esporte também tem uma dimensão social que não pode ser ignorada.
“O esporte salva vidas. Ele tira as pessoas da rua e coloca dentro do esporte. Seja futebol, vôlei, jiu-jitsu, natação ou atletismo, quando existe o incentivo certo, a pessoa pode encontrar ali uma oportunidade e desenvolver seu potencial.”
A escola como porta de entrada
Os irmãos também defendem que o esporte seja fortalecido dentro das escolas, com campeonatos interescolares que contemplem um número maior de modalidades.
Eles citam a experiência de Santarém, onde, em 2026, a natação passou a integrar o campeonato interescolar, depois de muitos anos de competições escolares sem a modalidade.
Para eles, ampliar o número de esportes oferecidos nas escolas pode ajudar estudantes a descobrir habilidades que talvez não aparecessem em modalidades tradicionalmente mais populares.
“É importante organizar melhor os campeonatos interescolares e colocar mais modalidades, para que os alunos tenham um leque maior de esportes para praticar”, defendem.
A proposta, na visão dos atletas, não é apenas formar campeões. É permitir que crianças e adolescentes tenham contato com diferentes modalidades e encontrem no esporte uma atividade capaz de contribuir para disciplina, saúde, convivência e desenvolvimento pessoal.
Uma nova geração pode representar o Brasil
Aos 18 e 19 anos, Luiz Felipe e Luiz Eduardo já começam a desenhar caminhos diferentes dentro do esporte. Um aposta no triathlon para continuar competindo e buscar índices nacionais e internacionais. O outro prepara-se para transformar a experiência de atleta em uma carreira dedicada à formação de novos competidores.
Os dois, porém, compartilham a mesma preocupação com quem está começando agora.
“Existem atletas jovens que estão começando a render em competições brasileiras e pan-americanas. Se houver incentivo, podemos ter uma nova geração capaz de bater recordes e trazer várias medalhas e títulos para o Brasil”, afirmam.
A história dos irmãos mostra que a formação de um atleta começa muito antes de uma medalha. Pode começar com uma criança que entra na piscina por recomendação relacionada à saúde, com um irmão que decide acompanhá-la, com um professor que oferece conhecimento e orientação ou com uma escola que abre espaço para uma nova modalidade.
No caso de Luiz Felipe e Luiz Eduardo, a piscina foi o ponto de partida. Agora, eles querem que outros jovens também tenham a oportunidade de descobrir até onde podem chegar. #ficaadica


