Uma carona pode durar apenas alguns minutos. Mas, dependendo do momento em que acontece, pode mudar o rumo de uma história. Foi com essa disposição que o jornalista brasileiro Rodrigo Pacheco Araújo (acompanhado de sua esposa, Jovana Benoliel) retomou, neste domingo (8), em Manaus, uma iniciativa que começou em 2018: oferecer transporte gratuito a estudantes que correm o risco de chegar atrasados aos locais de prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
De volta à capital amazonense para uma temporada, depois de sete anos vivendo em Portugal, Rodrigo Araújo, decidiu resgatar a ação que realizava com a família quando ainda morava na cidade. A proposta é simples: percorrer ruas e paradas de ônibus, identificar estudantes que estão com dificuldade para chegar aos locais de prova e oferecer carona gratuita.
A motivação nasceu de uma experiência profissional. Durante anos, trabalhando como repórter da editoria de Cidades do jornal A Crítica e de outros veículos, Rodrigo acompanhou de perto os dias de vestibulares, concursos e do Enem. Entre as cenas que mais o sensibilizavam estavam as de candidatos que chegavam depois do fechamento dos portões e perdiam a oportunidade de fazer a prova.
“Eu sempre me deparava com aquela pauta de concurso. Chegava lá e via a galera retardatária que ia perder a prova porque chegou atrasada. Aquilo me cortava o coração”, relembra.
A primeira iniciativa ocorreu de maneira espontânea. Em um domingo de aplicação de prova, enquanto acompanhava pela televisão a movimentação dos candidatos, Rodrigo decidiu sair de casa e tentar ajudar quem ainda estava a caminho dos locais de exame. A esposa aderiu à ideia, e os dois foram para as ruas.
Naquele dia, fizeram duas ou três viagens, transportando estudantes que poderiam não conseguir chegar a tempo. A experiência deu origem a uma ação que passou a envolver também os filhos e que se repetiu nos anos seguintes, até 2019, quando a família se mudou para Portugal.
Uma carona que se transformou em profissão
Entre as lembranças que mantêm viva a iniciativa, uma tem um significado especial. Em uma visita à redação do Portal Imediato, em Manaus, Rodrigo encontrou o colega jornalista Álvaro Corado. Durante a conversa, um repórter da equipe reconheceu seu nome e revelou que havia recebido uma carona dele no dia em que faria uma prova.
A surpresa veio com uma frase que Rodrigo nunca esqueceu: “Ele me deu carona para eu fazer a minha prova. Hoje eu sou jornalista por causa dele”.
O relato emocionou Rodrigo, que fez questão de compartilhar a história com os filhos. Para quem já havia presenciado tantos estudantes perderem oportunidades por causa de atrasos, descobrir que uma carona havia contribuído para a trajetória profissional de alguém deu uma dimensão ainda maior à iniciativa.
A história também mostra que a solidariedade nem sempre o produz resultados que podem ser medidos imediatamente. Às vezes, o impacto de um gesto só aparece anos depois, quando a pessoa beneficiada encontra uma maneira de contar o que aconteceu.
Salomão e os minutos que poderiam fazer diferença
Na retomada da ação, neste domingo, a realidade encontrada nas ruas foi diferente daquela que Rodrigo conhecia antes de se mudar. Segundo ele, Manaus apresentava uma movimentação maior de veículos e ônibus, além da presença dos serviços de transporte por aplicativo, que não tinham a mesma dimensão em 2019.
Se antes a família conseguia realizar várias viagens e transportar diferentes candidatos, desta vez a iniciativa resultou em uma carona que, por si só, já justificou a saída de casa.
O estudante Salomão, de 18 anos, foi encontrado na Avenida André Araújo, Zona Centro-Sul. Jovem aprendiz em uma empresa privada, ele tentava chegar a uma escola na região central de Manaus, onde faria a prova. O objetivo é ingressar em Engenharia da Computação.
Salomão havia enfrentado dificuldades com o transporte público: aguardava um ônibus, mas percebeu que a linha disponível não atendia ao trajeto de que precisava. Quando Rodrigo o encontrou, faltavam aproximadamente 20 minutos para o fechamento dos portões.
O percurso ainda reservava outro obstáculo. Ao chegar à região central, o trajeto pela Rua Leonardo Malcher, Zona Sul, estava comprometido por uma obra nas proximidades do hospital Samel. Foi necessário fazer um desvio pela Avenida Ayrão para alcançar a Rua Tapajós e seguir até o local de prova.
Na avaliação de Rodrigo, sem a carona, o estudante provavelmente não conseguiria chegar a tempo.
“Enche o coração de alegria ter ajudado uma pessoa. Diferentemente dos anos anteriores, quando a gente conseguia levar vários jovens, hoje ajudamos um. Mas valeu muito a pena”, conta.
Uma cidade diferente, o mesmo espírito de solidariedade
A comparação entre as duas edições da iniciativa também chamou a atenção do jornalista. Em 2019, segundo ele, as ruas de Manaus eram mais vazias aos domingos, as paradas de ônibus concentravam mais candidatos à espera de transporte e os aplicativos ainda não tinham a presença que possuem atualmente.
Neste retorno, a maior circulação de ônibus e veículos e a oferta de transporte por aplicativo mudaram o cenário. Para Rodrigo, essa transformação ajuda a explicar por que a procura por caronas foi menor.
Mas o propósito permanece o mesmo: olhar para quem está enfrentando dificuldades e fazer alguma coisa quando é possível ajudar.
Ao compartilhar a iniciativa antes da prova, Rodrigo também fez um convite aos moradores de Manaus: que outras pessoas aproveitassem a manhã de domingo para oferecer caronas gratuitas a estudantes que precisassem de ajuda.
A mensagem vai além do Enem. É um chamado à responsabilidade coletiva e à compreensão de que pequenas atitudes podem abrir caminhos para outras pessoas.
Afinal, o estudante que hoje precisa de uma carona pode ser o profissional que amanhã contribuirá com a sociedade. E talvez, muitos anos depois, ainda se lembre de quem parou o carro, abriu a porta e ajudou a transformar uma manhã de prova em uma oportunidade.
Em uma cidade de milhões de trajetos, Rodrigo Araújo mostrou que, às vezes, basta mudar o caminho de alguém para fazer a diferença em sua história.
