A Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) é um dos pilares do desenvolvimento econômico da Amazônia. Sua atuação vai muito além da indústria — envolve a geração de empregos, o estímulo à pesquisa e inovação e o equilíbrio entre desenvolvimento e sustentabilidade.
Em entrevista ao site A Grande Maloca, o superintendente da Suframa, Bosco Saraiva, fala sobre os desafios e oportunidades de fortalecer o modelo Zona Franca, que completou mais de meio século como motor da economia regional, e sobre os novos rumos da autarquia em um momento de transição para uma economia mais verde e tecnológica.
A Grande Maloca:A Zona Franca de Manaus é um modelo que resiste há décadas e ainda sustenta boa parte da economia da região. Quais são os principais desafios e perspectivas da Suframa para os próximos anos?
Bosco Saraiva: Um ponto fundamental e desafiador que esta gestão priorizou foi a interiorização do desenvolvimento. Criamos, para isso, o Plano de Interiorização e Regionalização do Desenvolvimento, o PIRD, em cujas jornadas pudemos colocar na vitrine não só os benefícios da Zona Franca de Manaus, da Amazônia Ocidental e das Áreas de Livre Comércio, mas também as ferramentas da Sudam e do Banco da Amazônia para o fortalecimento dos negócios aos demais estados da Amazônia Ocidental – Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima – e também do Amapá.
Em termos de perspectivas, a principal delas é advinda da segurança jurídica promovida pela reforma tributária, que assegurou as condições de competitividade do modelo em relação aos novos tributos. Por meio dessa nova perspectiva, acredito que podemos pensar em uma transição para uma Zona Franca Verde e Tecnológica. Queremos atrair investimentos em bioeconomia, indústria 4.0 e novos centros de PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação), diversificando a matriz econômica para além da eletrônica tradicional e integrando o modelo de desenvolvimento à agenda climática global. Acreditamos na ZFM, em um futuro breve, como um polo de soluções sustentáveis para o Brasil.
AGM) Em termos de emprego e renda, qual tem sido o impacto atual do Polo Industrial de Manaus, e quais setores mais se destacam?
Bosco Saraiva – O Polo Industrial de Manaus (PIM) é o principal motor de geração de emprego formal e renda qualificada na região. Em média, o PIM sustenta mais de 500 mil empregos diretos e indiretos, garantindo uma distribuição de renda que combate às desigualdades regionais. Mais do que números, ele gera qualificação técnica e estimula uma cadeia de fornecedores e serviços de alta complexidade. De acordo com dados dos Indicadores do PIM de janeiro a setembro de 2025, o mais recente publicado, os setores que mais empregam são: eletroeletrônicos junto com Bens de Informática, com 40.387 trabalhadores ocupados; seguido do Polo de Duas Rodas, com 20.569 trabalhadores e; termoplástico, com 14.520 pessoas empregadas.
AGM: A sustentabilidade é um tema cada vez mais urgente. Como a Suframa tem estimulado práticas sustentáveis e inovação nas empresas da Zona Franca?
Bosco Saraiva: Nossa principal ferramenta para estimular a adoção de práticas sustentáveis nas empresas do PIM é a Iniciativa ZFM+ESG, lançada recentemente pela Suframa com o apoio do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, o Cieam. Essa iniciativa estratégica, que foi anunciada na COP30, e que conta com a adesão voluntária de 35 entidades, visa aproximar o Polo Industrial da agenda global de Ambiental, Social e Governança (ESG), transformando a ZFM em uma referência nacional em economia verde e desenvolvimento sustentável. No que tange à inovação, focamos no uso dos recursos de PD&I da Lei de Informática da Zona Franca de Manaus para a Agenda 4.0, de modo a viabilizar o financiamento de projetos que utilizam Inteligência Artificial, IoT (Internet das Coisas) e Automação para otimizar a produção e reduzir o impacto ambiental.
AGM) A autarquia também tem investido em parcerias com universidades e centros de pesquisa. Como essas iniciativas fortalecem a indústria e contribuem para diversificar a economia regional?
Bosco Saraiva: As parcerias com instituições como Universidades, Institutos e Centros de Pesquisa são primordiais para o desenvolvimento regional. O modelo ZFM exige que parte dos investimentos em PD&I seja aplicada em pesquisa na Região, gerando um ecossistema de inovação. Isso garante que os projetos desenvolvidos atendam às necessidades específicas não só da nossa indústria, mas também às demandas de mercado, como a criação de novos produtos e novos negócios na Amazônia. Essas iniciativas criam um capital humano altamente qualificado, o que é fundamental para atrair novos setores de alta tecnologia. Ao formar mestres e doutores e desenvolver patentes, a Suframa e seus parceiros não apenas apoiam a indústria existente, mas também semeiam a próxima geração de empresas, especialmente em bioativos, fármacos e serviços tecnológicos, diversificando a economia e preparando a região para o futuro.
AGM) Diante das discussões sobre reforma tributária, como a Suframa tem atuado para garantir a manutenção dos incentivos e a competitividade da Zona Franca?
Bosco Saraiva: Grande parte da reforma tributária já foi regulamentada e as regras inerentes à Zona Franca de Manaus que foram definidas assistem ao que foi determinado no texto constitucional, o qual consignou no artigo 92-B do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias a manutenção, em caráter geral, do diferencial competitivo assegurado à Zona Franca de Manaus. Nossa atuação na Reforma Tributária foi incansável e técnica. Trabalhamos junto às entidades de Classe, Congressistas, representantes do Governo do Estado e dos Ministérios para garantir que o princípio da equivalência competitiva da Zona Franca de Manaus fosse mantido na Constituição e nas respectivas leis complementares. Isso significa que, mesmo com a mudança para um Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), e uma Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), os mecanismos de incentivo foram preservados para garantir que o custo final do produto fabricado em Manaus seja competitivo em comparação com o de outras regiões e de outros países.
AGM) Qual é a mensagem que o senhor deixaria aos amazonenses sobre o papel da Suframa na defesa do modelo econômico que sustenta milhares de famílias na região?
Bosco Saraiva: Quero dizer a todos os amazonenses, e a todos os moradores da Amazônia Ocidental e do Amapá, que a Suframa e a Zona Franca de Manaus permanecem como um importante mecanismo de desenvolvimento regional em grande escala que temos para conciliar a geração de emprego e o cuidado com a maior floresta tropical do mundo. O modelo resistiu a de 58 anos porque é resiliente e estratégico. Estamos trabalhando dia e noite para modernizar a Suframa, desburocratizar os processos e adaptar a ZFM para a economia do século 21, que é verde e tecnológica. Continuaremos firmes na defesa dos nossos incentivos no Congresso, pois a defesa da ZFM é a defesa dos milhares de empregos que sustentam suas famílias e a garantia do futuro de desenvolvimento e dignidade para nossa gente. A Zona Franca é de todos nós.
Em entrevista exclusiva à A Grande Maloca, o superintendente Bosco Saraiva fala sobre os desafios da reforma tributária, a interiorização do desenvolvimento e a construção de uma ZFM Verde e Tecnológica, preparada para liderar a bioeconomia, a inovação e a agenda ESG na Amazônia